Encontro de 2009 reuniu representantes de diversos
estados brasileiros e de pelo menos cinco países
A união faz a força
Henrique Alves
Foto: Riokan
De 24 a 30 de agosto importantes mestres da capoeira nacional e, principalmente, internacional, participaram do 1º Encontro Internacional da Acapoeira, realizado em Itaúnas (Conceição da Barra) promovendo rodas e oficinas. Os dois mais antigos mestres presentes, Preguiça e Nacional, foram contemplados com a comenda Teodorinho Trinca-Ferro, que é o escravo que introduziu a capoeira de angola no Brasil e participou na região das lutas contra a escravatura. O encontro foi promovido pelo grupo Acapoeira, do Mestre Capixaba, num movimento de integração entre os grupos.
O encontro trouxe um arejamento de pensamento na capoeira, abrindo uma integração entre os grupos, coisa até pouco tempo inimaginável, já que não há interação entre eles. A capoeira ainda conserva rivalidade entre eles, que são fechados em si mesmos. Este cenário foi apontado pelo professor Frederico de Abreu, da Bahia, que assim abriu sua palestra. Aliás, foi ele quem declarou que o encontro significava a liberdade dos grupos.
Entre eles estavam Mestre Capixaba, Mestre Preguiça (da Califórnia, EUA, que dá aula em universidades por lá), Mestre Dimola (Suécia), Mestre Carioca (Nova Iorque), Mestre Lua Rasta (da Bahia), Professores Arisco e Pitbull (da Alemanha), Professor Balla (da Espanha), Professor Índio (Canadá), Mestre Niltinho (Bélgica), Mestre Nenel (filho de Mestre Bimba), Mestre Sabiá (Salvador), Mestre Nacional (Rio de Janeiro), Mestre Nego Ativo e Mestre Merrinho (Minas Gerais), Mestre Edinho (Brasília) Professor Kiduro (SP) ;Do Espírito Santo, estavam presentes os mestres Luiz Paulo, Bininha, Ethienne e Militão, além dos professores Jefinho, baixinha, Clebão.
Entre as apresentações, a que causou emoção foi a do grupo da Apae de Cariacica, num projeto desenvolvido pelo professor Jefinho, com uma roda de capoeira em que a tônica era a superação das limitações dos capoeiristas. Também foram feitas apresentações especiais para os participantes de grupos de folclores da região: jongo, reis de boi e ticumbi de Santa Clara de Itaúnas. Destaque especial para a professora Baixinha, que levou alunos do Orfanato Cristo Rei e do projeto Reame, ambos de Cariacica, para o encontro.
Muitos capoeiristas que prestigiaram o Encontro vieram de países como Alemanha, Estados Unidos e Espanha. O evento também contou com representantes ilustres de Minas, Rio e São Paulo. Os mestres de maior expressão, caso do Preguiça, do Lua e do Dimola - cujas aulas foram as mais disputadas - demonstraram encanto e muito otimismo com a possibilidade de Itaúnas se transformar num grande centro internacional de capoeira, não só pela mobilidade, como pela força desse primeiro encontro.
Uma das oficinas mais concorridas do encontro foi a do Mestre Lua Rasta. Baiano, o mestre é percussionista requisitado e premiado no mundo inteiro. Não foi á toa, portanto, que muitos participantes procuraram seus ensinamentos. Ao final, isso provocou sensação, os alunos da oficina saíram pelas ruas da pacata vila.
Durante o encontro, o capoeirista Arisco, da Alemanha, que recebeu o corda marrom de professor, é o estrangeiro mais antigo em atividade da Europa. Há 16 anos, pratica capoeira e fez dela sua profissão. O Professor Balla, da Espanha, é capoeirista e compositor que vai gravar o primeiro disco desse encontro junto ao grupo da Acapoeira. O encontro internacional em Itaúnas teve o patrocínio da Visel, Banco do Brasil Seguros e Brasil Veículos Companhia de Seguros. Segundo o mestre Capixaba, o encontro será novamente realizado no próximo ano.
Para historiador baiano, Encontro de Itaúnas
vai se tornar referência no mundo da capoeira
Na opinião do historiador baiano, Frede Abreu, o “I Encontro Internacional A Capoeira”, que aconteceu em Itaúnas (norte do Espírito Santo) entre os dias 24 e 31 de agosto, foi afinado com a modernidade. Frede acredita que o Encontro tem tudo para se tornar referência no mundo da capoeira. Acompanhe a seguir as impressões do historiador sobre o evento.
Clima de festa! Encontro de amigos! Lugar-ambiente agradável! Gosto de quero mais! Estes fatores, tão essências à celebração de um evento de capoeira, predominaram no Primeiro Encontro Internacional do grupo A C.A.P.O.E.I.R.A., orientado pelo Mestre Capixaba.
Uma semana plena de acontecimentos: aulas e rodas de capoeira; oficinas de percussão, canto e berimbau; palestras sobre diversos assuntos pertinentes. Capoeira angola, regional e contemporânea, à disposição dos participantes. Gente do local, de outros municípios do Estado, de outros Estados do Brasil e do exterior.. Ministrando as atividades, os mestres Capixaba, Lua Rasta, Nenel, Ethienne, Niltinho, Dimola, Militão, Negoativo, Edinho, Manguinhos, Sabiá, Carioca, Nacional e Preguiça. Os dois últimos foram agraciados com a medalha Teodorinho Trinca Ferro, um lendário capoeirista cabixaba, em reconhecimento aos serviços por eles prestados à capoeira. Em 2007, João Grande e João Pequeno, inauguram esta homenagem, recebendo a referida medalha.
Mais de um grupo de capoeira representado. Um evento afinado com a modernidade: já não há mais espaço para grupos fechados. Uma representação significativa da diversidade da comunidade da capoeira se fez presente. Saliente a participação da garotada, mostrando sua arte, se esbaldando, sabendo que o evento era também para ela participar como protagonista e não como grupo secundário, só para efeito demonstrativo dos trabalhos sócio-educativos com ela realizados. Já é tempo de reconhecer a importância e riqueza da garotada para a capoeira, hoje se constituindo numa significativa parcela de praticantes dessa manifestação.
Além daquelas manifestações que seguidamente acompanham a capoeira nos eventos - maculelê, samba de roda, a puxada de rede - o Encontro de Capixaba contemplou manifestações da cultura regional, a exemplo de reisados, congos, ticumbis, propiciando para seus agentes novas oportunidades de visibilidade, vigor, e, para os participantes do evento que não eram de Itaúnas, mais informações e conhecimentos sobre a cultura regional. Quando das apresentações das manifestações regionais, provocou admiração e reflexão a expressividade estética do conjunto musical da APAE, o grau de sociabilidade alcançado e o aproveitamento da excepcionalidade dos membros do conjunto. Mais do que emotiva uma apresentação radiante.
Nas atividades realizados com as crianças e o pessoal da APAE, assim como nas outras oficinas conduzidas pelos professores da A.C.A.P.O.E.I.R.A, pode-se observar o surgimento de uma nova geração de profissionais do ramo, que não se destacam, exlusivamente, pelas habilidades no jogo, mas se tornam reconhecidos pela excelência dos trabalhos que realizam, principalmente valorizando os aspectos sócio educativos da capoeira, hoje bastante solicitados para firmar o conceito desta arte em escala mundial.
O evento abriu espaço para o Mestre Militão, tornar mais conhecido seu projeto – Ecoberimbau -, realizando uma palestra auspiciosa e experiências na mata sobre os aspectos que envolvem a fabricação do berimbau com o meio ambiente. Ofereceu modelos e padrões de procedimentos que podem e devem se tornar matriciais para a comunidade da capoeira, que já convive com essa realidade até de forma problemática, sobre a qual lhe é cobrada responsabilidade. Militão mostrou um sólido conhecimento sobre o assunto enriquecido de conhecimentos técnicos e empíricos.
Graças a Deus o evento nos livrou daquele cerimonial enfadonho; batizados e trocas de cordas intermináveis. Pelo contrário prevaleceram os atos curtos e atrativos, dinâmicos possíveis de serem assistidos e compreendidos por aqueles que não fazem parte do mundo especifico da capoeira.
Itaúnas, hoje conhecida com a “Capital do Forro“, é um local muito agradável, de população hospitaleira, possui equipamentos de qualidade e adequados para eventos com capacidade para atrair mais de quatro mil pessoas. Boa infra-estrutura. Boa comida. Pousadas com boas acomodações. Praias, dunas, matas e baladas atraentes para a rapaziada.
Claro que o sucesso do evento foi garantido pela atuação de uma organização eficiente, “tocada” por gente que entende de cultura, experiente na realização de eventos de porte, capaz de assegurar o que foi prometido, e de saber durante o próprio curso do evento alterar a programação para melhor dinamizá-lo.
Tem futuro este evento e sem pressa, vai se tornar uma referência no mundo da capoeira.
